As cartas continuam caindo !

     

    As cartas ainda caem. As malditas ainda estão a cair, mesmo eu estando trancado nesta merda de lugar, sem ninguém acreditar em mim. Não importando se eu estou ou não cobrindo todo meu corpo, elas ainda me tocam e as memórias de alguém vêm à minha mente, me deixando ainda mais perdido neste oceano de informações que inundam minha cabeça, sem de fato saber qual é a matéria da prova que irá cair.

    Condenado a ficar preso naquele lugar pelos crimes que nem sei se de fato cometi, tachado como louco pela sociedade, enquanto tantas lembranças passam em minha mente, as quais se misturam como uma sopa em um caldeirão de minha bisavó norueguesa. Me deram um nome em meu tribunal, só que para mim naquele momento era só mais um dentre centenas de milhares que já fui chamado naquela vastidão de lembranças que aquelas malditas cartas me traziam. Nem consegui ouvir qual fora tal nome ao qual falaram, se era um nome feminino, masculino ou que combinava em ambos os gêneros.

    Maria, Matheus, Akemi, Pierre, Amary, e a lista continua praticamente ao infinito! Não sei qual era o correto, qual das centenas de faces que já me vi no espelho é a verdadeira. Já fui homem, mulher e trans. Minha pele já foi uma paleta de cores e já tive várias vidas sem de fato sentir que nenhuma me pertencia. Nem sei quais sorrisos e lágrimas me pertencem, nem sei se eu ofendi a gritaria que estava no tribunal. Será que elas não sabem que em um funeral tem que ter silêncio?

   Às vezes, trancafiado naquele quarto de sanatório, conseguia ter algumas visitas, mas não sabia até que ponto eram reais ou fruto de minha insanidade que mistura a realidade com o imaginário. Talvez qualquer uma possa ser a verdade, mas será que vão na minha festa de 18 anos? Só espero que aquele maldito cachorro pare de latir ao lado de meu apartamento e que a merda da vizinha pare de reclamar do maldito do chefe que não come ela direito para  não atrapalhem a festa.

    Eu tenho que tentar encontrar um meio para aquelas cartas cessarem de cair como gotas de chuva, aí o papai vai poder me levar para a pracinha e a mamãe até disse que ia comprar sorvete para mim.

    Não sei como aliviar minha cabeça. Gritar não funciona e iria acordar o bebê que nem sei se de fato existe. Talvez isso seja só um pesadelo tão vívido que sinto como se fosse real. Nem posso saber se estou chorando ou se aquele sangue no chão é o meu!

    Escuto algumas pessoas gritando ao fundo, pareciam preocupados. Nem estou ligando, só quero descansar… Amanhã eu trabalho, preciso juntar dinheiro e comprar um presente para minha sobrinha. Ela gosta de carrinhos?

    Se eu não for na festinha dela , meu irmão vai ficar triste comigo, mas será que vai ter salgadinhos? Meus tios sabem que eu gosto de salgadinho. Só vou dormir um pouco e depois vejo se as cartas pararam de cair para que eu possa pensar melhor.



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