Prólogo ( guardiões: protetores da ficção
“ O mundo está uma merda sem sentido…”, pensava o rapaz enquanto escutava o noticiário que passava na velha televisão da banca de jornal ao qual estava sentado em uma pequena escada esperando o jornaleiro que estava mais ao fundo.
— É, garoto, o mundo não é mais o mesmo! Estes políticos só conseguem foder ainda mais o país! — comentou o velho jornaleiro enquanto se aproximava do rapaz com uma pequena sacola em uma das mãos. O mais novo olhou para o senhor de pele mais escura concordando com a cabeça. — Fica 80 reais como sempre, não vai querer nenhum mangá hoje?
O rapaz se levantava da pequena escada, mostrando melhor suas vestes mais escuras, sem nenhum cuidado, e foi em direção ao jornaleiro enquanto tirava o dinheiro do bolso.
— Obrigado, Seu Roberto, mas dei uma olhada de relance e não tem nenhum ao qual me chamou atenção! — o rapaz respondia à pergunta, já pegando a sacola e entregando o dinheiro ao mais velho, tendo um sorriso claramente falso em seu rosto pálido cheio de olheiras. A visão fez Seu Roberto suspirar triste e se virar para sentar na única cadeira da banca.
— De nada, garoto. Saiba que na próxima vou cobrar mais caro, entendeu? Biscoito com energético não é comida de verdade, isso faz mal ao corpo, não colocar um arroz com feijão, sabe? Comida de verdade! — O mais novo somente fez um joinha, não parecendo ligar para a bronca do mais velho. Então o mesmo começou a andar para fora do pequeno estabelecimento com as mãos nos bolsos da calça. Os ventos tranquilos batiam nos cabelos pretos do rapaz, que observava o seu redor enquanto andava, um cenário ao qual ele dizia ser sem alma: ruas com asfalto rachado, casas velhas, poucas sendo bem cuidadas, e sacos de lixo na calçada se acumulando aos poucos.
“Se isso fosse em um bairro nobre provavelmente teriam latas de lixo e a porra da prefeitura iria fazer algo com estas ruas!”, pensou o rapaz constatando o óbvio. “Não é somente aqui no Brasil que está este inferno, guerras sem sentido, centenas de pessoas morrendo das mais diversas formas, este mundo de fato está condenado à destruição pelas mãos da raça dita como inteligente… inteligente é meu ovo.”
O rapaz chutou um saco de lixo com raiva, ação que foi logo seguida por uma risada fina e infantil. O jovem de vestes cinzas olhava o seu redor e não conseguia ver de onde vinha a tal risada.
— Olha para cima! — As risadas foram pausadas, o olhar do rapaz se direcionou para onde a voz de criança o direcionou, vendo um garoto de não mais de 8 anos com vestes do século retrasado e cabelos de um azul bem escuro.
O garoto estava sentado em pleno ar, de pernas cruzadas e braços apoiados em seus joelhos. Seu rosto demonstrava um sorriso arteiro, bem como seu olhar. Uma visão única na vida de muitos, sendo a mais estranha que o rapaz tinha visto em seus 22 anos de vida.
— Boa tarde, por acaso vossa excelência seria o senhor Michael Lobato, né? — Uma pergunta ao qual o tom de voz entregava ser algo retórico, ainda mais com a risada irônica. — Não precisa responder, eu sei que é sim!
— O que é car… — Em um piscar de olhos, uma mão cobriu a boca do rapaz, que notou que o garoto à sua frente sumiu.
— Meu caro amigo, não é porque estamos só nós dois que te dá passe livre para falar palavras chulas! — o pequeno azulado repreendia o “mais velho”, retirando a mão do rosto dele no processo. Sons de passos eram escutados até o garoto ainda sorridente ficar na frente de Michael. — No entanto, devemos parar com enrolações para começarmos os negócios!
— Quais seriam estes negócios? — Michael se moveu alguns passos em sua retaguarda. O sorriso do garoto sumiu, que suspirou triste, colocou a mão canhota em um dos bolsos de sua roupa, enquanto a destra ele alisou seus cabelos de maneira suave. Logo em seguida olhou, de maneira séria, o rapaz.
— Me diga: você não quer mudar este lixão cuja sua espécie chama de “sociedade” e “mundo moderno”? — questionou o garoto com tom sério e até meio macabro. Os olhos de cor cinza pareciam invadir a mente e a alma de Michael.
A temperatura do ambiente diminuía juntamente com a mudança da mesma, pois todo o cenário fora substituído por televisões de vários modelos e épocas, sendo que todas passavam coisas como futebol, reality shows, programas de entretenimento, animação e várias outras futilidades nos mais diversos idiomas.
— Está vendo, rapaz? Enquanto o mundo queima e está sendo destruído, pessoas são entretidas facilmente pelas pessoas que estão no poder! — O garoto movia a mão livre mostrando todos os aparelhos televisivos, sendo acompanhado pelo olhar de Michael. — Inclusive, existem não só os meios audiovisuais que são usados para isso, como também…
— …livros, mangás, música e revistas! — completou Michael com o olhar vidrado nas telas, sentindo um misto de raiva, impotência, ódio e tristeza.
— O famoso pão e circo, uma expressão e política que acompanha este mundo desde o início da sociedade! Algo que parece imutável, mas… — o garoto abriu um sorriso sacana — parecer não é um fato, né?
— Sendo sincero, está tudo tão difícil que o “parecer” já é um fato inquestionável do mundo! — Tal fala do rapaz fez o garoto soltar uma risada enquanto se aproximava.
— Meu rapaz, quanta falta de fé seria esta? — Uma risada foi seguida pela pergunta. — Não precisa responder tal questionamento, no entanto, tem um jeito sim para mudar tudo e por isso quero sua ajuda.
Michael ficou calado por uns segundos, olhou para as telas ao qual mostravam agora não só programas de entretenimento como também jornais de várias nações mostrando só desastres e desgraças. Então ele olhou o garoto com um olhar sério:
— Como posso ajudar? — Michael, com determinação, questionou, fazendo o garoto sorrir de maneira vitoriosa. Aos poucos, em uma das mãos do azulado surgia um objeto, e o mesmo se aproximava do rapaz à sua frente.
— Para mudar este mundo, preciso dominar um plano superior, um lugar onde a criatividade se origina, mas sozinho não irei conseguir. — O garoto parou na frente de Michael com uma espécie de colar nas mãos e entregou para o mesmo. — Por isso preciso de um campeão, um líder que guiará meus escolhidos, os quais me ajudarão a dominar este plano superior e derrotar quem ousar nos impedir. Então questiono: aceita ser este tão líder?
Sem palavras, o rapaz de cabelos negros soltou a sacola no chão, deixando cair várias latas e sacos de biscoito. Logo pegou o colar nas mãos do garoto e colocou em seu pescoço, fazendo o garoto sorrir ainda mais.
— Muito obrigado por aceitar, pode me chamar de Alzor! — o garoto se apresentou antes de estalar os dedos, fazendo ambos sumirem e o cenário voltar ao normal, tendo só o saco ainda no chão cheio de latas de energético e as guloseimas.
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